O
GRANDE DESAFIO
Estava o rapaz lendo, sentado em um banco de
praça, quando de repente por cima de sua cabeça passou flutuando uma linda
moça.
Não entendia como aquilo seria possível, mas
ficou inebriado com a formosura da moça, encantou-se por seus suaves movimentos
que se assemelhavam a de uma pluma levada ao vento; seu vestido de muitos panos
tremulava solto em movimentos graciosos e fluidos; completava o balé seus
cabelos dourados, onde cada fio se unia a outros, formandos airosos cachos. Pairava livre sobre
a praça, até que uma aragem a levou.
Somente com os olhos, ele acompanhou
boquiaberto, enquanto ela se afastava em ritmo zefiral, até sumir de vista; sem
querer pensar muito naquilo, baixou a cabeça e voltou ao seu livro, tentando
continuar com sua vida.
Noutro dia, no mesmo banco lendo seu livro
sem nenhuma ganância, mas intimamente com o desejo de que tudo voltasse a se
repetir, o rapaz teve outra vez a visão da moça.
Sem largar o livro, pôs-se a correr atrás;
contudo, enquanto em seu percurso, percebeu estar ele mesmo suspenso cerca de
um metro de altura. Sentindo medo, caiu abruptamente direto no chão. Enquanto tentava se recobrar,
percebeu um velho homem trajado de forma simples que estava rindo da queda:
– É garoto, tombo foi feio...
– O senhor também a viu? O senhor a viu?
– Sim, sempre a vejo, seu nome é Sonho, já
foi motivo de ruína pra muitos. Eu mesmo já a segui, uma vez subi a pé o morro
e tentei alcançá-la quando passava por perto, mas não deu. Percebi ser ela
inalcançável sem tirar o pé do chão.
– Mas o senhor não conseguia flutuar como eu
fiz a pouco?
– Sim, mas tive medo de acabar igual ao
outro.
– Que outro?
– Outro que como nós, também viu a Sonho, e
encantado por sua beleza tentou segui-la, chegando até a perder o medo de voar
e seguindo ao céu atrás dela.
– E o que aconteceu?
– Ele subiu tanto, que acabou passando direto
por ela, subindo cada vez mais até se perder na estratosfera. Uns dizem que
morreu, outros que está até hoje perdido por lá.
O moço juntou do chão seu livro, o pôs de
baixo do braço e se foi, sabe-se lá com quais ideias na cabeça. Apenas caminhou
reto até sumir de vista.
Poucos dias depois, enquanto fazia de olhos
fechados, sua suave dança pela brisa, alheia a tudo que se passava em terra e
despreocupada com o mundo, Sonho sentiu algo lhe tocar a mão. Com espanto abriu
os olhos, depois sorriu ao ver do seu lado aquele jovem leitor da praça, que
teve a audácia de voar até ela e a astúcia de amarrar em sua perna uma corda
atada ao banco.
Moral: Não
se pode alcançar o sonho sem ser arrojado e se arriscar, contundo devemos ser
atentos o suficiente para não perder a ligação com a realidade.
Por
Rafael Arguelles

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