FÁBULAS ETERNAIS - A GRANDE CONFUSÃO


A GRANDE CONFUSÃO

As crianças sempre inventavam histórias sobre aquele casarão no fim da rua; geralmente que as duas velhas moradoras do antigo imóvel eram bruxas; que tinham caldeirões de onde saiam uma espessa fumaça verde encaracolada, ou que possuíam vassouras voadoras e que saiam à noite assoviando para assustar os moradores da cidade. Outros as julgavam apenas duas loucas senis e reclusas com medo de tudo; mas a verdade é que raramente se via qualquer uma delas, às vezes umas siluetas na janela, sempre cortinas fechadas, promovidas por uma luz evanescente e bruxuleante.

Um rapazote destemido, bem conhecido entre os infantes daquele bairro, recebeu um grande desafio – entrar na casa e bater uma foto com seu telefone móvel de todo o ambiente e se possível até das misteriosas idosas.

Valendo-se de sua valentia, aliada a insensatez da juventude, adentrou furtivamente no casarão. Apesar de não ter medo, estava de certa forma temeroso, pois havia tanto tempo que não se viam as irmãs, que não seria absurdo ele se deparar com cadáveres. Um castiçal de cinco velas iluminava parcamente o local de cima da mesa central. Andou pela casa tirando fotos de todos os cômodos que passava, até que chegou em frente a porta do quarto. A abriu de vagar, fazendo o mínimo de ruído e entrou.

Qual foi o seu espanto quando se deparou com duas camas de solteiro arrumadas em paralelo, em cima duas mulheres bastante idosas, deitadas com os braços cruzados; pensou consigo que estavam mortas, porém ao se preparar para bater a foto as duas simultaneamente abriram os olhos:

– O que você faz aqui?! – espantou-se a primeira.
– O que você quer aqui?! – completou a segunda.
– Pensávamos que estavam mortas, por isso entrei aqui!
– E praticamente estamos! Hoje o mundo se esqueceu de nós, as pessoas mergulham em seus novos costumes e idéias, que acabamos de nos retirar dele.
– Por quê?
– Ninguém se preocupa com sua consciência, não se mede as consequências de seus atos, não se age pelo que é certo, só pelo que se é proveitoso; e os bons costumes? Perderam espaços para uma nova visão de mundo, onde princípios mais básicos foram corrompidos em suas essências.
– Mas do que vocês estão falando?
– Fala-se em direitos e deveres, mas se esquecem do que é respeito, passam por cima de tudo só pra satisfazer seus desejos. Não, não há mais lugar para nós nesse mundo!
– Ainda não entendi nada!
– Muitos em nome de minha irmã promovem verdadeiras guerras, mas se esquecem de mim! Como podem? Assim cometem verdadeiras atrocidades! Vá embora e nos deixe aqui escondidas, para que possamos morrer em paz!
– Quem são vocês? Como se chamam?
– Ah jovenzinho, que importa nosso nome para a sua geração, porém para atender sua curiosidade: eu sou Ética e minha irmã é Moral.
De repente, sua mente, que até então estava confusa, se iluminou em uma epifania, agora entedia tudo com clareza; e mesmo com sua inexperiência, sentiu a oportunidade de realmente fazer algo importante:
– Mesmo que a humanidade esteja confusa e tenha se esquecido das duas, agora é o momento que ela mais precisa de vocês; é nesse momento que as duas precisam estar lá fora, fazendo-se valer na mentes das pessoas. Para que não usem seus nomes à toa, para que saibam quem realmente são!

Pegando as duas pelas mãos, o garoto desceu as escadas até a entrada da casa, abriu a porta e saiu com as irmãs; a tempo de contemplarem, na linha do horizonte, mais um nascer do sol.

Moral: É mais fácil se esconder ante situações complexas; é preciso agir para que as coisas mudem, contudo sem abandonar nossos princípios e o respeito ao próximo.

Por Rafael Arguelles

2 comentários:

  1. Olá

    Gostei muito e estou pedindo se posso colocar no blog?
    Desde já agradeço

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