FÁBULAS ETERNAIS – A GRANDE OBRA


A GRANDE OBRA 


Ora, como era ano de eleição e como era de praxe, várias obras adiadas e letárgicas começaram a ser feitas em uma pressa e velocidade já conhecida pelos eleitores, com a finalidade de concluí-las antes do fim do mandato; contudo como tudo tem uma contramão e toda regra exceção, em certa cidade algo diferente aconteceu.


Já com um restaurante popular pronto, o prefeito adiava sua inauguração, às vezes até a marcava, porém pondo culpa sobre a burocracia, delongava de novo. O prédio era bonito, grande com paredes em tom turquesa do verde ao azul que se espalhavam sobre as mesas e cadeiras do refeitório; sua cobertura era de uma arquitetura singular, em vez de um telhado grande e único, se dividia em várias formas triangulares maiores e menores, nas cores laranja e coral, o que dava e a impressão, de longe, de se ver várias casinhas.


Fixou-se então a data final; divulgou-se o evento em todas as mídias (jornal, televisão, rádio, internet...). Como a grande obra iria melhorar muito a vida das pessoas mais simples, grande multidão se apresentou no local, para esperar a hora marca; no entanto, enquanto o tempo passava, a expectativa crescia e o líder municipal não aparecia, fazendo o povo, pouco a pouco deixar o local, na medida em que a fome aumentava.


Ao longe, em seu carro, o prefeito via tudo e se orgulhava de mais uma manobra política. Em seu pensamento achava que quanto mais próximo da eleição entregasse a obra, mais certa seria a sua reeleição; quanto ao fiasco, iria por a culpa mais uma vez na burocracia. Então, sorrindo voltou ao seu gabinete.


Ao abrir a porta, deparou-se com duas malas pequenas e um anão sentado em sua cadeira, e logo não conseguiu conter o espanto:


– Quem é você? O que faz aqui?
– Eu só vim me despedir – Descendo da cadeira, o pequenino foi apertar a mão do político.
– Mas eu se quer conheço você?!
– Conhece sim, só não lembra – pegando a foto do dia da posse – sou esse aqui.
– Não é não, esse sujeito é alto e robusto; você é pequeno e franzino!
– Bem, isso foi no dia da posse, com passar do tempo eu comecei a diminuir; mas, foi realmente nesse ano eleitoral, por conta da do restaurante, eu realmente encolhi. Isso é só o que sobrou de mim, por isso vou embora; antes que eu suma de vez, vou sumir daqui.
– Quem é você? Qual o seu nome?
– Sou Credibilidade, estava com você desde a campanha eleitoral; agora, depois dessa última procrastinação da inauguração da obra, não posso mais continuar ao seu lado.
– Mas eu tenho uma boa desculpa!
– Burocracia já não cabe mais. 
– Invento outra!
– Não dá, não me sustento mais aqui.
Então pegou suas malas, abriu a porta e saiu, mas antes de ir, soltou uma última frase:
– Ah, esqueça a reeleição...


Moral: A promessa muito adiada acaba caindo em descrédito; quando nós garantimos algo e usualmente procrastinamos, nosso compromisso, apesar de sério, tende a não ser encarado assim.


Por Rafael Arguelles

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