A CONVERSA



A CONVERSA

– Antigamente existiam outras cores.
– É verdade?! Não era tudo cinza assim?
– Não.
– Quais?
– Bem, tinha o azul que percorria todo esse céu.
– Não era cinza assim?!
– Não.
– Tinha o verde, que encontrávamos nas árvores.
– O que são árvores?
– Ta vendo aqueles troncos e galhos secos pelo chão? Antes estavam inteiros e eretos, neles existiam várias folhas, nas mais variadas formas, linhas e curvas.
– Deveria ser lindo!
– Tinha o amarelo do Sol, nas ondulações de seus raios quentes.
– Sol?
– Uma luz forte que reinava no céu durante o dia, uma estrela.
– Então nem sempre foi tão frio assim?
– Não.
– Tinha o alaranjado, era um tom que se espalhava pela terra, pelas estradas de barro, pelo pó e pela lama, onde podíamos brincar de guerra de lama durante uma chuva.
– Podíamos brincar na chuva? Ela não machucava?!
– Não.
– Conte mais!
– Tinha o vermelho, quando o céu se punha ou nascia na linha do horizonte, acontecia o arrebol. De manhã se chamava aurora e de noite crepúsculo, podíamos ver todo céu pintado de tons rubros, não tinha tanto prédio alto que hoje nos atrapalha de ver além de suas paredes.
– Poxa...
– Tinha o roxo das flores, as flores tinham várias cores, mas sempre achei as roxas mais bonitas e cheirosas; ah que perfumes!
– Flores? Perfumes?
– Sim, depois lhe explico melhor sobre elas.
– Me responda uma coisa.
– Sim.
– De onde saiu esse mundo tão feio que nós vivemos?
– Ah, saiu da mente de homens pervertidos e ambiciosos, que nunca tiveram a sensibilidade de pensar no amanhã e nas crianças; homens que criavam guerras, só para saber quem era mais intolerante e interesseiro. Usavam e abusavam da terra, tirando o melhor dela e devolvendo lixo pra ela. Este mundo é reflexos de seus pensamentos, a externação de suas almas.
– É uma pena vovô...

Por Rafael Arguelles

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