Aquele
homem rico levantou e abriu a janela pra ver o nascer do sol, no entanto o que
viu foi o céu poluído, algum matiz amarelo tentando aparecer entre a fumaça; na
praça a frente somente galhos secos era que restava das árvores e o tom de
cinza se espalhava pelos concretos da cidade se misturando com o preto do
asfalto, entrecortados pelas curvas de um pequeno rio sujo de lixo e dejetos
químicos; as pessoas passantes eram pálidas ou de aparência insalubre.
Nesse
instante ouviu um riso infantil em seu quarto, virou a cabeça para ver e se
deparou com uma menina por volta dos seus seis anos, vestida de branco tal qual
uma fada, sorrindo sentada na beira da cama:
–
Finalmente você deixou a consciência aflorar!
Sua reação
foi pensar em como a sua fábrica havia contribuído para o cenário,
sentiu um amargo na boca, a criança então levantou e lhe deu um copo de água
que estava no criado-mudo:
–
Esse gosto ruim não vai passar, é preciso tomar atitudes doces, para ele ir
embora.
– Por
onde eu começo? Fecho a fábrica?
– Não
precisa. Apenas precisa mudar hábitos: implantar filtros nas chaminés,
reflorestar as árvores derrubadas, não jogar resíduos no rio...
Ele então
começou as mudanças, contudo não se limitou ao seu ambiente de trabalho, usou
de sua influência e dinheiro para espalhar esta transformação pela cidade,
plantou jardins e árvores, limpou o rio, criou projetos para melhorar a vida de
todas as classes, tão forte foi seu exemplo que todos o acompanharam e pouco a
pouco as coisas tomaram nova aparência.
De manhã
ele se levanta e abre a janela; se depara com o nascer de sol mais lindo que
tinha visto, nuances de verde e flores se espalhavam pela praça; e o pequeno
rio limpo passeava ao lado pessoas vívidas e saudáveis. Ouviu uma risada e
feliz se voltou pra ver:
–
Atitudes doces tiraram o gosto amargo de minha boca!
– E
a consciência lhe traz um presente – A menina andou e segurou sua mão – Peça e
terás a ciência de qualquer coisa desse mundo.
–
Sei que a visão de minha janela é obra inacabada, gostaria de vê-la como estará
daqui a cinco anos, creio que mais bonita.
A menina
baixou a cabeça de forma triste como que quisesse chorar:
–
Por que você pediu isso? Se tivesse pedido pra saber sobre sua morte, diria lhe
hoje, mas partirias feliz; se perguntasse o maior mistério do universo, contaria
lhe a resposta e partirias feliz, mas agora...
Olhado
ele pela janela viu a paisagem assombrosa de antes, como se nada tivesse sido feito.
Pôs a mão em seu peito, sentiu uma dor, o sabor acerbo voltou:
–
Como?! Por quê?!
–
Porque quem também precisava aprender, não aprendeu.
Sabendo
mais uma vez do que se tratava, sentiu seu corpo adormecer em uma dor intensa,
fechou seus olhos e caiu.
Sua herança
ficou para seu único filho, um rapaz que morava em outro continente, onde
estudava e a quase duas décadas não via o pai; rapaz prático, porém de pouca
sensibilidade. Ao ver os documentos financeiros da fábrica, convocou uma reunião
com seus diretores, para implementar suas ideias:
–
Devemos cortar gastos, tem coisas que se não estivéssemos pagando, lucraríamos mais;
se perde muito dinheiro com manutenção dos filtros das chaminés,
reflorestamento, e coleta de resíduos...
Moral: Não devemos mudar
nossas atitudes somente para salvar o mundo para nossos filhos; devemos também
ensiná-los a preservar o mundo para novas gerações, e a repassar esse ensino adiante.
Por Rafael Arguelhes

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