FÁBULAS ETERNAIS



O EXEMPLO DO PEÃO

Certo soldado de infantaria ao se aposentar foi trabalhar nas terras de um conde conhecido por sua bondade, generosidade e religiosidade; também por ser muito prático e rápido nas resoluções de problemas cotidianos.
Foi necessário construir uma nova estrada, porém em seu caminho havia um secular carvalho; o senhor chamou o velho peão e o mandou derrubar a árvore e supervisionar a abertura da via, pois estava de viagem agendada e não poderia ele mesmo fazê-lo. Ainda pediu que fosse recolhido todo o lixo de sua propriedade (restos de metais, louças e comida) e jogado em uma floresta próxima. Por fim, deixou o amo o condado sobre responsabilidade do servo, porque apesar sua simplicidade era bastante inteligente e cheio de experiência, portanto homem de confiança.
Ao regressar pela estrada nova, percebeu que o carvalho continuava em pé e que a estrada estava o contornando. Ainda no caminho, perto de uma grande estaca de ferro, encontrou um grupo de homens que lhe reclamaram o fato de seu servo ter proibido a caça na região. Antes de chegar em casa, reparou em vários canteiros construídos a partir de restos de metais e louça, de onde vinha um cheiro forte e azedo.
Estando em sua casa, mandou chamar urgentemente o ancião e o indagou sobre as mudanças feitas em suas ordens e sobre a proibição da caça; e recebeu a seguinte explicação:
– Não poderia eu destruir tal antiga obra de Deus, seus cinco galhos até parecem uma mão se erguendo em louvor; as árvores também são entes importantes, por isso desviei a estrada. Também não joguei o lixo na floresta porque a sujaria, podendo ser perigoso até para os animais que vivem por lá; com os ferros e cacos, preferi construir canteiros, onde jogamos os restos de alimentos, misturando-os com a terra para fazer adubo e usar na plantação. Proibi a caça porque está em época dos animais se acasalarem e gerar filhotes. Com a caça nesse período, não se dá chance aos animais, pois matam filhotes, fêmeas prenhas; desse jeito, eles acabarão sumindo da floresta e do mundo; por isso pus uma estaca de ferro pra marcar essa proibição durante esse tempo.
– meu caro, suas intenções foram boas, contudo suas decisões não foram práticas; são resoluções que fazem perder muito tempo e são impopulares; não se chateie, pois vou mandar desfazê-las e implantar soluções rápidas de retorno imediato.
À noite, ao por sua filhinha pra dormir o nobre se admira com o seguinte relato:
– Pai, antes de o senhor voltar, eu sonhei com Deus; Ele me disse que essa noite passaria nessas terras e levaria para morar com Ele o homem que mais o ama; que está mais próximo dele.
A princípio não quis levar a sério o sonho da infante, mas no decorrer da noite, inquieto, pensou consigo que fosse morrer, deveria deixar as coisas encaminhadas. Mandou chamar seu fiel empregado para, de novo, lhe passar as responsabilidades; contudo tal foi sua surpresa quando voltaram com a notícia de que o velho peão não poderia atendê-lo, pois havia morrido enquanto dormia. Sentiu como se um cravo lhe perfurasse a consciência ao perceber o quanto foi prepotente e indolente em seu proceder. 
Na manhã seguinte o conde organizou um grande funeral para seu amigo e o enterrou ao pé do carvalho, também mandou buscar a estaca de ferro e a enfiou entre os galhos para simbolizar o cravo em sua consciência e a lição de amor e respeito que teve; também para servir como exemplo a todos, como guia a uma nova direção rumo à eternidade.

Moral: Quem respeita a vida, a si mesmo respeita. Quem ama o criador; não destrói a sua criação.

Por: Rafael Arguelles 

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