FÁBULAS ETERNAIS



O MISTÉRIO DA TORRE

Fez-se muita alegria quando aquele bando de artistas mambembes chegou, as crianças riam bem alto, chamando seus pais para ver o aglomerado de cores do desfile; outras saiam correndo atrás da carroça espalhando uma festa, que em pouco tempo já estava generalizada; somente a velha torre no centro da cidade parecia alheia à folia, pois de dentro da construção alta e imponente não se via qualquer reação aos visitantes. E assim foi por muitos dias.
Com tempo o líder da trupe forasteira indagou aos nativos o que era aquela misteriosa torre, acabou descobrindo que era onde se localizava o governo local e que a região era regida por um conselho de anciões que ali moravam e não saiam de lá em momento algum, transmitindo suas resoluções ao povo sempre através de seus arautos. Organizou, então, uma comitiva e solicitou uma audiência com o conselho, pedido que foi aceito sem nenhum problema.
Adentrando ao salão com mais dois companheiros, percebeu um ar carregado, um ambiente triste, acinzentado, silencioso. No fundo uma grande mesa onde estavam sentados três velhos desbotados e taciturnos com suas perucas brancas encaracoladas e ternos quase fúnebres. Quebrou o silêncio dirigindo-se a eles:
– Senhores, eu e meu grupo, há alguns dias, temos levado alegria e descontração à população, porém gostaríamos de fazer eventos semanais em grande escala na praça, por isso precisamos da permissão, do apoio e da ajuda do conselho.
Tendo apenas o silêncio por resposta, o artista saiu frustrado. Reuniu sua gente e anunciou que em alguns dias seguiriam em caravana. No dia da partida foram surpreendidos com um anúncio de um arauto:
– O conselho avisa a implantação de um novo projeto para o lazer da população: a contratação de artistas que chegarão na próxima semana para realizar programações semanais e em grande escala em plena praça pública.
Indignou-se, pois, o saltimbanco ao perceber que sua idéia havia sido roubada, quis protestar, mas sabia que não tinha como provar a sua autoria; então, subindo em um marco, dirigiu-se aos seus, mas de forma que outros também escutassem:
– Amigos, existem sanguessugas que se nutrem não de nosso sangue, mas de nosso talento, que praga poderíamos rogar para tais rastejantes criaturas? Que vivam sós, escondidas do sol, da alegria de da paz? Acho que não, pois suas consciências já os enclausuraram em uma morte em vida, estão mortos e enterrados, mas fingem a todos que não; são cadáveres porque não têm criatividade, eis ai o seu mistério revelado.
Terminando o desabafo, desceu, pegou suas coisas, pôs em suas costas e saiu fazendo arte.

Moral: Os medíocres, não admitindo suas próprias limitações, usam idéias de outros como se fossem suas, sem dar o devido crédito e ainda se orgulham disso.

Por:Rafael Arguelles

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