FÁBULAS ETERNAIS



O BISPO E AS MUDANÇAS

Ao regressar de uma longa viagem, um velho bispo percebeu que muitas coisas haviam mudado em sua igreja: costumes novos, que estranhamente contrariavam os antigos ensinos, foram inseridos; Fábulas haviam tomado conta do que era fato; práticas tão complexas que sequer condiziam com a simplicidade litúrgica de outrora foram introduzidas.
Não que fosse contra mudanças nem defensor de um statu quo, mas compreendia que existem verdades imutáveis que, mesmo com toda modernização inevitavelmente necessária, devem ser preservadas; verdades essas que estavam submersas e sufocadas por tantos modismos.
Foi ter com seus companheiros bispos para saber o que ocorrera em sua ausência; e foi apanhado por mais uma dessas mudanças: o bispo-mor (que era alguém com autoridade inquestionável sobre àquela igreja em questão e todos os seus bispos). Ao adentrar no gabinete pode ver seus colegas sentados e dispostos de uma forma hierárquica que anteriormente não existia. Pôs-se diante do trono central e questionou todas as mudanças. O bispo-mor sorrindo explicou:
– Os tempos são outros, não podemos nos prender a costumes tão antigos e caducos.
– Não falo dos costumes nem das tradições, essas coisas se modernizam com o tempo; mas em meio a tudo, acabaram substituindo também as verdades que nos foram confiadas pelos antigos ensinos.
– Não nos preocupamos com a verdade, queremos o povo feliz e satisfeito, mesmo que pra isso ignoremos os antigos ensinos. Você não concorda conosco?
– Não posso concordar com extermínio da verdade, o fim da liberdade, que foram trocados por essas ilusões. Levarei estas questões ao povo, vejamos o que eles irão escolher?
– Um povo que se questiona é perigoso, pois logo questionará as nossas posições e nossa autoridade. Você é muito perigoso e deve ser silenciado.
Então levaram o ancião para cumprir sua pena (dada sem um julgamento e como se fora um criminoso). O colocaram em uma minúscula câmara de paredes extremamente grossas e fecharam a entrada com três fileiras de tijolos, de forma que não se pudesse ouvir nenhum ruído vindo de dentro do quarto.
 Acreditaram que assentando o último tijolo calaram sua voz. Contudo o velho religioso, mesmo no escuro, sentia-se em paz, desfrutava a liberdade de seus conhecimentos; sabendo que a verdade não estava cerrada em um calabouço e no seu devido tempo jorraria como uma fonte para todos que quisessem beber.


Moral: A verdade plena nos faz livres; porém, muitos em muitos lugares e de muitas formas tentam substituí-las, ou escondê-las, com a finalidade de dominar as pessoas.



Por: Rafael Arguelles

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